#1 - Omelete ou ovo mexido? Eis a questão

Cantinho para falar sobre as receitas que dão errado na nossa vida, os impactos dessa newsletter e traumas que a gente herda de quem cria a gente e uma talvez quem sabe alternativa de como lidar com isso tudo.

O óbvio da vez é que: às vezes demora mesmo para alguma coisa mudar dentro da gente.

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Aviso de conteúdo: tem foto de comida logo abaixo e se você ver: /i pelo texto, saiba que significa ironia (é um indicador de tom)

No dia que eu decidi que ia mesmo fazer isso aqui eu tava fritando ovo. Na verdade eu queria era fazer uma omelete, mas deu muito errado e o negócio virou um ovo mexido tunadão mesmo. 

Tava gostoso pelo menos u.u embora talvez não tenha ficado lá muito bonito.

A situação fez eu lembrar da minha mãe (algo que acontece com certa frequência quando eu estou cozinhando), ela com certeza iria pegar a panela, os seis ovos e rebolar tudo no mato e ai de quem reclamasse que ovo tá caro!

Rebolar no mato = gíria que mainha e vó usavam para falar que jogou algo fora.

Presenciei situações assim diversas vezes, inclusive já quase tomei banho de molho de lasanha (quente) pois eu estaria bem na mira do liquidificador se ela não tivesse interrompido a coisa toda (era um natal qualquer e eu já era adulta, ela não tem feito mais isso mas acho que nesse dia ela tava muito pistola e quase fez).

Só comecei a aprender a cozinhar quando eu saí da casa dos meus pais, pois durante minha infância ela sempre me expulsava da cozinha quando estava no fogão. Minha mãe até cozinha bem, porém ela odeia ter que fazer isso, mas ela faz, afinal é seu dever como mulher, mãe e esposa /i. 

Nisso também rolava um capacitismo de leve com aquela superproteção que fazia ela presumir que eu não teria coordenação motora nem para riscar um fósforo sem me queimar, de que eu iria bagunçar a cozinha toda ou me cortar só de pensar em segurar uma faca. Nessa época eu nem ligava, na verdade era melhor pra mim, uma tarefa a menos, podia só ir assistir (provavelmente) Castelo Rá-Tim-Bum em paz. 

Segundo mainha se passasse 10x o mesmo episódio eu queria assistir as 10x - Eu amava a TV Cultura - lembro que gostava mas não lembro dessa questão aí não >.<

Durante a pandemia em um dado momento me separei e voltei a morar com ela, já sabia fazer algumas coisas e descobri que eu gostava pra caramba de fazer isso, aos poucos fui invadindo a cozinha e agora toda data comemorativa ou cozinhamos “juntas”, ou agora sou eu que expulsa ela da cozinha pra ver se ela se dá uma folguinha, especialmente no natal, o clima na minha família já não é lá essas coisas, ter ela estressada e sobrecarregada por ter que fazer uma ceia inteira não ajuda em nada. 

A situação do meu omelete que deu errado me fez pensar nisso e sobre como na verdade a gente só tem que continuar tentando enquanto estamos em processo de aprender a fazer alguma coisa, afinal era só a primeira vez que eu estava tentando fazer uma omelete daquele jeito específico, outro dia eu tento de novo. Por isso apenas aceitei e mudei a receita no meio do caminho, “me recuso a repetir as coisas que ela fazia” — pensei triunfante. 

Porém, todavia, entretanto… o pulo do gato nesse dia foi que de repente eu percebi uma coisa, que pensando bem, eu tenho feito isso com outras coisas, não tenho não? 

E sim, eu tenho feito isso com muitas outras coisas, infelizmente.

Eu achei que tinha superado essa coisa(*) de jogar a panela fora com comida e tudo que minha mãe fazia (sim, um dia eu realmente prometi a mim mesma que eu nunca faria uma atrocidade dessas com a comida), mas foi só até a página 2. Eu posso não fazer isso no mesmo contexto que ela, mas parando para pensar, tem outras situações que seguem esse padrão na minha vida. 

Tá difícil demais… cancela!

Tá demorando demais a dar resultado… guarda na gaveta!

Tem questões pessoais demais com as quais lidar se eu continuar fazendo isso aqui, não quero mais… vou deixar para depois!

E com isso criei um belíssimo padrão de evitação isso sim! Mas vou deixar para falar disso ali abaixo entre parênteses flores.

Não precisa nem ser jogar fora, pode ser apenas pular para uma coisa nova e deixar a anterior pela metade, seja uma história, um desenho, um desejo ou meta para dois mil e alguma coisa que a gente nunca vê se concretizar.

Sou uma acumuladora de projetos inacabados e ideias talvez incríveis que nunca saíram do papel. Parece uma alcunha triste demais, meu objetivo a partir de agora é me tornar o oposto disso.

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Sabe aquele (*) que deixei ali acima quando falei que achei que tinha superado essa coisa? Resolvi abrir um parênteses esse entre flores para nomear melhor isso.

Descobri que essa coisa é na verdade a raiva e que essa parece ser uma das emoções que a MiniMika mais sente. Em terapia percebi que personifiquei essa raiva nela e que além dos motivos mais óbvios para a sua existência, ela é também aquela parte parte de mim, aquela que nunca foi permitida ou ensinada a expressar raiva, descontentamentos e afins.

Vamos combinar que nascer com uma buceta no meio das pernas faz automaticamente você perder várias coisas que são humanamente compreensíveis, saudáveis e necessárias - como a raiva.

“É feio uma garota ser briguenta” e “que absurdo uma garota tão estudada como eu falando buceta!” ~ eu real tive dificuldade de falar essa palavra por mais de 30 anos da minha vida.

Temos que ser flores delicadas e primorosas, afinal. Sentar direitinho, falar baixinho, se vestir bonitinho, agir educadamente e nunca, jamais, em hipótese alguma: dar trabalho.

Se você nasce com deficiência e essa deficiência for invisivel, aí temos algumas camadas a mais de regras: você não pode sentir raiva disso, você não pode achar ruim pois, olha só tantas crianças que nasceram em situações piores que você não é mesmo? Como devem sofrer essas mães, abençoada foi a minha por minha deficiência não me impedir nada, sou independente e tenho minha autonomia mais ou menos preservada, inteligente, consigo falar tranquilamente e certamente teve gente que passou pela minha vida que se eu não falasse nem imaginaria que sou uma pessoa com deficiência.

Quando eu era criança fazia acompanhamento neste lugar aqui - o CRI (Centro de Reabilitação Infantil) que hoje se chama CERAI (Centro Especializado de Reabilitação Adulto Infantil), - na minha época não tinham PCDs adultos (+ /i) então fiquei por lá só dos 3 aos 18 anos e ia com frequência variável a depender do tratamento que estava sendo feito (pelo que eu suponho pois não lembro com exatidão), então cresci acompanhando muitas crianças com diversas deficiências nesse espaço, hoje sei que essas crianças a quem minha mãe me comparava quase dando graças a deus “pelo castigo dela não ter sido pior”, eram crianças com Paralisia Cerebral.

Na época da faculdade em 2018 consegui fazer um semestre dos estágios obrigatórios lá nesse lugar e foi muito bom retornar a um local tão significativo na minha história, mas falo disso em outro momento por que no entre flores a gente só fala de assunto espinhento u.u

Falar disso me fez lembrar da cara do recrutador da empresa que trabalho atualmente, brilhando os olhos e passando a me tratar como princesa escondida entre os plebeus quando falei que era PCD, que estava ali fazendo o processo seletivo munida de um belo documento recente e válido comprovando isso. (importante ser válido pois tem empresa que exige que esse documento tenha sido emitido em até 12 meses, pois obviamente cada ano você renova sua deficiência e tem que ir comprovar né +/i)

Na empresa que eu trabalho tem uma campanha de indicação e nessa campanha “seu amigo PCD” vale (hoje) uns R$600,00. E sim ela é divulgada com essas mesmas palavras, só que sem aspas.

Pois é, uma belíssima campanha, não é mesmo? i/

Não sei se já tinha isso ou quanto alguém como eu valia na época que entrei lá em 2019 (antes da pandemia), mas quando penso na reação dele e na facilidade com que eu passei nas etapas seguintes (por passei leia-se pulei todas as etapas seguintes), mesmo eu que sou ruim de contas consigo somar 2 + 2 e supor que foi algo do tipo mesmo.

Situação de merda patrocinada pelo nosso queridíssimo privilégio PCD (+ /i)

sempre que eu vejo a comunicação interna sobre isso faço uma cara dessas

Antes eu achava que tinha criado a MiniMika como forma de ridicularizar meus “pensamentos feios” e aprender a ignorar eles, ser para o mundo mais como eu sou por dentro, mas parece que não é o caso. A Newsletter e meu processo em terapia me ajudaram a começar a ver a MiniMika com outros olhos, algo que eu já estava começando a fazer, agora só escancarou de vez e se tornou algo mais central para mim, algo ao qual me dedicar conscientemente a partir de agora e escrever sobre isso tudo vai ser minha maior ferramenta! Seja aqui, seja no bujo, seja em conversas gigantescas com quem aguenta minhas conversas gigantescas, nas raras vezes que eu me permito ser a pessoa falando em uma conversa gigantesca.

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Enquanto psicóloga, eu atuo com base na abordagem da Psicologia Histórico Cultural que, por sua vez, tem como base o Materialismo Histórico Dialético e sempre comento com as pessoas que atendo que a vida é um processo mesmo, não dá para seguir um tutorial e acessar nossas configurações, mexer pra lá e pra cá e de repente estar agindo, pensando ou sentindo de uma forma diferente.

Não dá para ser o Adam Sandler em Click né, mas mesmo se desse para ser, dá bem ruim no final que eu me lembro então eu não recomendaria não

É aqui que o óbvio precisa ser dito (foi por isso que eu nomeei essa newsletter assim, inclusive). Tenho muitos óbvios que preciso dizer para mim mesma e certamente eu vou ter que fazer isso mais de uma vez.

Nessa situação da minha mãe, por exemplo, eu estava crente e abafando que já tinha superado a questão, mas na minha família materna todas as mulheres são bem parecidas, não só fisicamente, percebo que nos comportamentos também. A diferença é que cada uma é fruto do seu tempo e o tema muda. No que para minha mãe é o cozinhar, pra mim é a escrita, para minha avó eram as relações, para a minha tia é a própria família e sabe lá o que era para as mulheres além das que eu conheço. 

Queria até compartilhar essa postagem lindíssima no insta que fala justamente sobre essa questão. É um carrossel então tem mais informações na sequência, vale a pena dar uma olhada depois de terminar a leitura por aqui ;)

Eu sei, não é uma questão exclusiva das mulheres da minha família, até porque não dá pra fugir muito disso quando tá todo mundo no mesmo barco: o Titanic do capetalisto e sujeitas às pressões que colocam em cima da gente, não é mesmo? Fora que a gente aprende vendo como nossos cuidadores lidam com a vida e posso afirmar que ninguém faz a menor ideia do que tá fazendo, tá todo mundo perdidinho tentando descobrir ainda.

Ok, mas… faz o que depois de perceber isso? 

Mas aí eu não sei nadar, e agora?

Tá, deixa eu explicar.

Recentemente eu estava em uma supervisão em grupo com o “Bruno Katharsis” e um dos tópicos que falamos era sobre o tomar consciência de alguma coisa; que isso é importante, mas que isso por si só não promove uma mudança real, se pah até traz um sofrimentozinho a mais pois pode gerar uma certa cobrança interna, algo como: “bora bora você já entendeu tá esperando o quê para fazer a diferença minha filha!?” 

Te soa familiar? Por aqui ocorre quase sempre. Acontece que esse é só o primeiro de muitos passos e como em um jogo de tabuleiro sempre tem umas casas que fazem a gente voltar para o início.

Depois de tomar essa dose de consciência tem que tomar uma dose de ação também. 

Aí é que vem a parte mais difícil da coisa toda, pois tomar consciência é algo que até acontece rapidamente quando você tem alguém para te guiar nesse processo (em terapia, quero dizer), mas entender na prática que esse meme aqui é bem real e parar de fazer isso aí é outros quinhentos. 

A gente pode até saber que enfiar um pedaço de pau numa roda de bicicleta enquanto a gente tá andando na poha da bicicleta vai dar ruim, mas tem vezes que a questão envolve tanta coisa que chega dá uma agonia no juízo e quando você pensa que não, lá está a criatura caída estatelada no chão.

A minha ação mais recente começou a ser executada aqui com o envio desta newsletter e isso para um único conjunto de tópicos dentre as minhas questões: a escrita, o compartilhamento, o enfrentar esse medo de ser julgada como óbvia, prolixa, palestrinha e afins, falar palavrões por mais bobinhos que eles sejam perto dos que ouço no meu amigo carioca com quem moro, mas são meus, são minha forma ainda sutil de expressar raiva, indignação e tantos outros sentimentos associados a isso que eu nunca pude expressar, tanto que até fui capaz de não sentir, mesmo quando deveria.

O fato é que cada questão vai requerer ações e esforços consideráveis. Certamente o processo vai se reiniciar, uma, duas, três vezes ou mais, pois a vida vai acontecendo e você vai aprendendo e de repente surge uma coisa nova que faz você olhar para tudo de maneira completamente nova.

Não sou só eu que digo isso, mas posso afirmar que a linguagem organiza o pensamento então o segredo (pra mim) é falar/escrever pelos cotovelos, não ignorar a MiniMika me mandando calar a boca ou falando todas as coisas que uma criança amargurada pode falar para alguém, mas sim ouvir, tentar entender, ser a adulta que não tivemos quando precisamos. O jeito é seguir tentando e sempre respeitando também quando eu não conseguir, até porque não dá para equilibrar todos os pratos sempre e ficar rodadas sem jogar também faz parte do jogar

(já sei como que eu vou terminar isso, com uma música, há!)