#3 Qual a distância entre a Itália e a Holanda?

Cantinho para falar sobre o que não fazer se você descobrir que foi parar na Holanda + atualizações sobre um possível vem aí.

O óbvio da vez é que dois filhos (ou mais) criados na mesma casa e pelos mesmos pais nunca serão iguais e que as expectativas e as palavras que um adulto dirigem a uma criança, podem criar raízes e se transformar em coisas completamente diferentes do desejo de qualquer pai ou mãe.

Há dias MiniMika me questiona o tempo todo: 

— Para quê vai falar disso, não interessa a ninguém, é só mais uma história triste do Naruto! Tá querendo que sintam peninha da gente, é?

Definitivamente não, mas se alguém sentir pena, que sinta caladinhe em casa.

Eu não sei se isso vai ressponder mas, deu vontade de falar disso, falei. É minha única regra por aqui “estar afim e minimamente à vontade para falar sobre”.

Talvez quem sabe uma mãe se preparando para a sua viagem para a Itália leia esse texto em algum momento e isso amenize pelo menos 1% o impacto de chegar na Holanda, caso aconteça ou quem sabe ajude alguém a entender um pouquinho mais sobre criar uma criança com deficiência.   

Às vezes eu esqueço, mas sim sou a irmã mais velha. Tenho um irmão caçula que nasceu exatamente um dia após meu aniversário de 8 anos e que, segundo meus pais eu quis muito ter, mas que na prática nunca ou quase nunca foi como um irmão caçula para mim. 

Essas contradições aleatórias na minha vida foram causadas por vários fatores que hoje me fazem refletir muito sobre toda a minha relação com esse irmão que é fria, distante e monossilábica na maior parte das vezes. 

Amo o meu irmão, isso é fato, mas tê-lo é como uma cicatriz que você tem há anos e vez ou outra doi quando faz frio demais. Duvido muito que ele venha a ler essas palavras, mas se vier, espero que entenda que isso não é sobre você ou eu sermos ou não bons irmãos, acho que é mais sobre a expectativa quebrada dos nossos pais e uma série de consequências disso.

Aparentemente alguém viu o que não tinha em mim e por um tempo meus pais acharam que eu seria um garoto quando eu ainda estava na barriga da minha mãe. Digo aparentemente pois essa é uma daquelas histórias de família que você nunca tem certeza se entendeu direito, preciso até perguntar a minha mãe se essa memória é real ou não, mas, independente da veracidade dessa história, eu cresci com essa informação. 

Se somarmos isso ao fato de eu ter nascido com deficiência, pitadas de informações mal compreendidas (que se tornaram uma situação bem constrangedora na escola) salpicado por rancor paterno, descontrole e imaturidade materna e a agitação de um caçula enérgico virado do tetéu, com quem você nunca conseguia brincar direito, o resultado foi eu crescer me achando uma decepção para todo mundo ao meu redor. 

Tem um texto escrito por Emily Perl Knisley em 1987 que eu conheci na faculdade, mas que me fez pensar demais na minha vida inteira sendo a Holanda dos meus pais. 

Nem sei se esse audio ficou bom, mas quis tentar mesmo assim. Quem não puder/quiser ouvir, tem o texto aqui.

Se ouvir e abrir o pdf com o texto, você vai perceber que eu pulei uma parte, fiz isso para focar só no trecho que me cabe enquanto Holanda, para dizer que acho que na prática por muitos anos meus pais não superaram o fato de terem ido parar na Holanda ao invés da Itália.

Sendo adulta agora, eu entendo que eles fizeram o melhor que podiam com o que tinham, tal qual eu e você estamos fazendo hoje em dia (eu espero), mas não posso negar que esse processo todo deixou uma série de marcas que só agora, quase 35 anos depois, estou começando a descobrir como fazer parar de doer. 

Tratar uma filha como uma barbiezinha de cristal o tempo todo, ao mesmo tempo que fala para todo mundo que a trata como qualquer “criança normal”, pode deixar uns bug muito sinistros na cabeça dela. Então, se você a trata como qualquer “criança normal”, porque ela nunca pôde estar junto das outras “crianças normais”? Agir assim podeter feito ela achar que fez algo muito errado e estava sendo punida em tempo integral.

Enfatizar o tempo todo que a sua filha barbiezinha de cristal é frágil e por isso seu irmão 8 anos mais novo, que já seria mais forte que ela, mesmo que ele tenha só 5 anos de idade e por isso esse irmão teria que ter cuidado para não ser muito bruto nas brincadeiras típicas de um menino de 5 anos, pode quem sabe ter deixado a sua filha com medo de se aproximar dele. 

Se vangloriar para todas as suas amigas que sua filha é estudiosa e se comporta ficando quietinha quando está na casa dos outros com você, enquanto quase ao mesmo tempo ela observa que a coleguinha “criança normal” que é filha da sua amiga, está bagunçando a sua casa inteira junto do seu irmão mais novo - ignorando a sua filha pois ela é muito quietinha e frágil poderia se machucar - se ainda por cima, ao mesmo tempo você reclama com esse irmão mais novo, que também é uma “criança normal”, pode deixar tudo muito confuso. Se sua filha é estudiosa mesmo como você diz, ela já consegue fazer deduções tipo essas: 

Se eu sou inteligente, estudiosa e quieta e isso é um elogio, logo isso é bom.

Se o meu irmão é agitado e não gosta de ir para a escola e isso é uma reclamação, então, isso é ruim. 

Igual as outras crianças o meu irmão corre, pula, bagunça e grita o tempo todo e quando a mãe tenta fazer ele parar, o pai fala que “deixe o menino brincar, pois isso é normal para uma criança”, logo posso presumir que esse irmão é uma das “crianças normais”.

Eu não faço nada disso e ainda faço coisas que não vejo outras crianças fazendo como ler, escrever e assistir coisas de adulto, ser capaz de entender pelo menos um pouquinho disso, enquanto seus colegas mal fazem a lição de casa, que eu geralmente faço na escola mesmo enquanto a professora explica, logo sou diferente das outras crianças que são parecidas com meu irmão.

Se meu irmão é normal e as outras crianças parecem com ele, então eu não sou normal igual a ele. 

E aí se eu pesquiso no dicionário o significado dessa palavra e descubro que é exatamente o que eu pensava, “algo comum, natural”, mas descubro que também significa algo como “física e mentalmente saudável (diz-se de pessoa)” e “cujo comportamento é considerado aceitável e comum (diz-se de pessoa)” e ela não e eu não sou uma “criança normal”.

E se de repente me lembro da aula de português sobre sinônimos e antônimos e fico curiosa para procurar quais são os antônimos de normal, eu automaticamente posso entender que aquelas palavras me descrevem de alguma maneira, algumas parecem horríveis e eu não quer ser horrível assim” 

A missão da minha vida pode então então passar a ser o mais normal possível, ainda que não consiga fazer várias das coisas que vejo as outras “crianças normais” fazendo, tipo tomar banho de piscina. 

Talvez eu acabe crescendo achando que sou algum tipo de normal meio quebrado, já que tem detalhes que são iguais a outras crianças sim, mas posso ficar na dúvida se vai ser suficiente algum dia, pois a essa altura já notei que tem coisas normais que os outros fazem e eu nunca vou conseguir fazer, como correr na aula de educação física, levar os livros e cadernos para a escola na mão igual as meninas da turma que têm capas de cadernos lindíssimas que eu nunca teria pois enfim, são cadernos para “meninas normais” com coisas de “meninas normais”. 

E talvez em algum momento eu até ache bom ser obrigada a levar na mochila pois 1: eu não teria força suficiente nos braços para levar tantos livros por um caminho tão longo e 2: a capa do meu caderno se pareceria mais com os cadernos dos meninos: com fotos de alguém praticando esportes (que eu nem gosto) ou de uma mulher de biquíni que até que tem um corpo muito bonito, é verdade, mas não tinha nenhuma mulher de biquínina capa dos cadernos das outras meninas. 

Talvez eu até ache estranho que ao crescer meu corpo se torne algo completamente diferente das capas de caderno que eu tinha naquela época e isso seja mais um lembrete de que o meu normal veio meio quebrado, faltando alguns pedaços.

Talvez na adolescência eu possa até ficar com muita raiva do que é considerado coisa de “menina normal” e de repente quem sabe eu passe a querer ser mesmo estranha, mas sinceramente, lá no fundo tenho certeza que mesmo assim eu adoraria ter ou fazer “coisas normais” de meninas da idade dela. Quem sabe assim eu tivesse tido mais amigas e até quem sabe ido visitar uma delas nem que fosse só para fazer um trabalho da escola como eu ouvia as outras “meninas normais” contando no recreio.

Talvez depois de toda essa história eu até encontre um lugar onde possa ser considerada normal, como por exemplo um possível trabalho de auxiliar administrativo onde finalmente algumas das minhas características não normais sejam bem vindas às vezes, já que eu aprendi a ter um foco absurdo no que eu estou fazendo para tentar ignorar as coisas normais que as pessoas ao redor estavam fazendo e eu não e daí com isso eu passe a viver para agradar todo mundo nesse trabalho, já que gostam de certas caracteristicas, ao mesmo tempo que todo mundo ao redor faz questão de me lembrar que eu não sou visualmente normal também e isso me deixe muito estressada pois afinal, eu nunca pude fazer as coisas normais de meninas e não aprendi a se arrumar ou a passar batom ou a vestir uma roupa decente. Quem sabe até me faça sofrer mesmo depois de sair desse local. 

Talvez eu entenda que tenho que compensar tudo que falta sendo muito inteligente, mas descubra que isso também faria eu virar chacota na empresa. E com isso acabe aprendendo que é melhor ficar mesmo quietinha caladinha apenas observando a ponto de eu esquecer que tenho opiniões, visão de mundo e muita coisa para compartilhar igual a todo mundo.

E caramba, como é difícil agradar os adultos ao redor, né? Bom pelo menos agora eu também sou adulta e tô tentando ME agradar mais, ainda é estranho, mas parece que está surtindo algum efeito já que tem alguém além de mim lendo tudo isso eu espero.

Eu poderia continuar descrevendo possibilidades para essa “hipotética” filha por dias a fio e aí descobriria se essa plataforma tem limite de palavras, mas eu vou confiar que quem está lendo já deve pelo menos ter entendido alguma coisa até aqui, mesmo sem eu descrever a moral da história bonitinha igual numa fábula, que por sinal eu gosto pra caramba. 

Mas se ainda precisar de um último exemplo, deixo esses dois vídeos que Ben me mostrou hoje e ilustram totalmente o tipo de criança que não fomos. Eu olho esses vídeos e penso: “Nunca. Jamais. Em hipótese alguma eu teria tanto desprendimento de me divertir fazer tanta bagunça assim”.

 

Queria compartilhar uma novidade também :) para não ser apenas histórias tristes do Naruto aqui.

Acho que agora finalmente eu tenho tudo o que eu uma vez senti que precisava ter para escrever um livro bem do jeitinho dos livros que eu gosto de ler :) 

Com isso talvez eu traga vez ou outra alguma coisa sobre uma história chamada Flores de Cristal. Que Benjamin sempre fica cantando Lua de Cristal quando lê esse título >.< e isso também não sai mais da minha cabeça.

Vamos ver se depois dessa imagem em que juntei várias coisas que remetem à história ainda vamos pensar na Xuxa :p 

Tecnicamente vai ser uma fantasia anticolonial dentro do universo de ODQR, enquanto criava coragem para compartilhar isso publicamente, reuni 100 das minhas últimas leituras favoritas de 2021 pra cá aqui (ou pelo menos tinha 100 livros nessa estante quando essa newsletter saiu) entre outros que pretendo ler e sei que marcam bem o tom das coisas que eu escrevo na minha cabeça.

Eu até tentei fazer um pitch / começo de sinopse impactante (segundo o Ben), olha que evolução você estar lendo isso aqui!

A música de encerramento hoje também tem relação com Flores de Cristal, pois foi um dia desses que eu li o significado dessa música e me lembrei que uma das coisas que eu sempre quis com a escrita era ser capaz de contar um monte de história nas entrelinhas, que soasse legal para quem não conseguisse ou não soubesse identificar o subtexto, mas que tivesse mais significado e importância ainda para quem conseguisse.

Tipo One Piece ou desenhos antigos que a gente curtia na infância e depois que cresce percebe que falava umas paradas mega pesadas ‘-’