#4 Gritando o mais alto que consigo

Cantinho para falar de uma semana caótica, mas que trouxe uma revolução e tanto na minha vida e que me fez ter a semana inteira dedicada a lidar com a situação.

O óbvio da vez é que ser mulher te coloca numas situações bem merdas quase sempre e que isso pode acontecer mesmo em um ambiente em que você espera que todos os envolvidos sejam adultos e estudados o suficiente para não reproduzir certas opressões.

Olha só! Quem diria, teremos fofocas nessa newsletter! 

Não só isso, obviamente, mas essa edição aqui está totalmente moldada por uma situação específica que aconteceu essa semana. Vocês vão ver que vai aparecer alguns xingamentos, pois o caso foi tenso mesmo e até eu, que não tenho esse hábito, já xinguei horrores.

Se você é mulher (ou não, mas foi socializada como uma), eu espero que esse tipo de coisa aconteça ou tenha acontecido contigo o mínimo possível, infelizmente nem posso dizer “nunca”, embora eu também deseje isso, mas sendo realista, sei que é impossível ser lida como mulher e sair ilesa nessa vida sem sofrer misoginia. 

Ao longo da minha vida eu literalmente conto nos dedos de uma única mão as vezes em que a raiva ou qualquer sentimento derivado/relacionado a ela guiou minhas ações. Esses momentos acabaramm sendo extremamente significativos por causa disso, alguns de uma forma bastante desconfortável, mas essa já foi a terceira vez, então tô menos ruim em lidar com isso até porque, também é a primeira vez que eu consigo aceitar como algo ok de se sentir, que não sentir raiva nesse momento, aí sim significaria que algo não estava lá muito correto dentro de mim.

Vou separar por ocasioões para ficar mais fácil de explicar.

1ª Ocasião: 

Eu trabalhava como auxiliar adm no meu primeiro emprego há quase 6 anos e tinha uma chefe que oscilava entre ser legal, gostar de mim e me tratar como gente e ser exigente demais, me detonar e pegar no meu pé por toda e qualquer coisinha — trabalhar em empresa familiar é um inferno! E olhe que nem era tãããão pequena assim, mas tinha uma cultura péssima (aparentemente ainda tem, já que os chefões são os mesmos até hoje, pelo que diz um amigo meu que tá lá ainda, mas que para a sorte dele, agora ele é o chefe no setor que eu trabalhava antes). 

Por um tempo ela ficou cismadíssima que todo mundo falava mal dela pelas costas, mas na época ainda não tinha rolado na minha presença e se acontecia não eram as pessoas que ela achava que falavam, tipo eu e minha colega de trabalho. A situação foi piorando ao longo de vários dias até que em um deles, na volta do almoço, coincidiu de ela entrar na sala justamente na hora que eu estava saindo de perto da mesa dessa colega (a quem estava mostrando algo numa revista da Avon) e indo para a minha mesa tirar minha soneca. 

Ela entrou, notou isso, foi logo batendo a porta, pisando duro, pegou os itens de higiene pessoal dela e saiu, não antes sem comentar um “pera que eu vim só pegar isso aqui, já vou sair para vocês continuarem a falar mal de mim à vontade” ~ e bateu a porta dramaticamente em seguida ~ fiquei atônita por alguns segundos sem acreditar no que tinha acabado de acontecer, mas de repente eu estava indo atrás dela, que tinha ido deitar em algum lugar e mandei um: “você está vendo coisa onde não tem, acabando o seu intervalo quando você voltar pra sala nem pense que vou fingir que tá tudo bem não, a gente vai ter que falar sobre isso!” — Na real eu nem lembro o que falei só sei que era algo sobre quando você voltar para a sala precisamos conversar mas num tom que pra mim soava como estando bravissima!

Voltei pra sala bufando de ódio e tremendo, em choque com a situação e com a minha própria atitude. Falando assim parece tão pouco para causar uma reação dessasm né? O problema é o acúmulo, se eu nunca falava e me esforçava ao máximo para ser boazinha, comportada e agradável para compensar as partes “não normais”, como falei semana passada, uma hora iria acontecer. Nessa altura já eram seis anos aguentando várias coisas praticamente o tempo inteiro calada e muitas vezes sem nem entender o que exatamente estava me incomodando. Coisas que eu só entendi de fato naquele período afastada que também já contei por aqui.

Para completar, ela retornou antes do fim do intervalo pois não quis esperar pra ter a tal conversa e surpreendentemente foi uma ótima conversa pelo que me lembro. Por mais que ela tenha feito tantas coisas que tenham me causado aquele tipo de machucado que você às vezes nem vê, mas sente quando vai tomar banho, sabe? Eu nunca a odiei de fato ou sequer cultivei essa raiva dela por si só. 

É raiva do contexto de merda em que fomos colocadas. Raiva do fato de vivermos numa sociedade que não ensina ninguém a lidar com o que sente e aí fica cada um por si, entre outras coisas, isso abre brechas para a reprodução de opressões que até mesmo as vítimas dessas mesmas opressões passam. 

Às vezes, entender essas coisas te deixa muito irritada, mas sobre isso vou falar mais pro final.

Não justifica nem ameniza os erros, mas eu convivi com essa mulher por anos da minha vida e obviamente não foi tudo ruim. Como qualquer relação, foi complexa e jamais poderia se resumir à dor que me causou. O que não quer dizer que eu escolheria de boa vontade voltar a essa convivência, ao menos não nos mesmos termos (eu sou otimista e tendo a acreditar que as pessoas podem mudar e rever seus erros do passado, fazer o quê).

Ruim mesmo, devo dizer, eram as atitudes do chefe dela, nosso chefe imediato que por vezes agia mais como um ……. sei lá, nenhum tipo de animal merece ser comparado àquele tipo de pessoa. Eu quase falei galo, mas tadinho dos galos, eles são só galos e fazem as galices deles, que se fossem feitas por um homem humano talvez desse cadeia, é fato, mas aí estaríamos atribuindo aos coitados essa formação social bosta que a gente tem. 

Ruim foram as ações de um certo indivíduo aí e que me fazem pensar pensamentos que o setor jurídico dos meus divertidamente me alertou para nem expressar publicamente. Ainda assim eu tenho certeza que você entende o que eu quero dizer, já que desse tipo tem aos montes por aí, infelizmente. Esse sim se eu ver na rua cumprimento se falar comigo apenas por ser muito educada, obrigada, por que merecer, não mereceria não. 

2ª Ocasião: 

 Nessa não lembro exatamente o que causou, ao menos não a gota d’água, pois o acumulado esse eu sei bem como se formou. Meu primeiro relacionamento durou 13 anos ao todo e com algumas idas e vindas desembocou em uma situação verdadeiramente complicada que, embora já faça uns cinco anos que rolou, suas consequências me afetam até hoje em alguma medida. 

Dessa situação, só lembro da expressão dele e a fala cautelosa, coisa que ele não fazia. Isso porque eu comecei a brigar com ele com uma faca enorme na mão! Eu sei que eu tava muito brava nessa hora pois sequer lembro de pegar essa danada dessa faca! Hoje eu acho até graça, mas caramba deve ter sido assustador para ele também. Bom, foi só isso mas marcou pra caramba! Pra mim é quase como o auge da minha maneira de expressar a raiva. Sendo inclusive essa uma situação bem comum, a de nem perceber algumas ações tomadas na hora H. Imagina se eu fosse um tiquim mais impulsiva e ele continuasse falando merda?  

Acho que para as pessoas que convivem comigo saber que eu já puxei a faca pra alguém mesmo que inconscientemente, deve ser bem “eita 😮”, ao menos é como me sinto sempre que lembro, é estranho e nem parece eu mesma. Essa situação por si só me faz pensar nesse ex que sempre teve problemas para lidar com a raiva, ao contrário de mim ele expressava mas a fúria se apoderava por completo, comigo essa parte nunca rolou, que bom pra ele e pro meu réu primário, também.

3ª Ocasião:

Eis que chegamos no pivô desse assunto todo e sinto que dei um giral danado ao invés de contar logo de cara o que aconteceu, mas gostei de como saiu (não foi planejado) e também preferi falar de forma indireta para não expor ninguém.

Vamos começar analisando o significado da palavra misoginia. Quando a gente pesquisa no dicionário, vemos apenas esses 2 significados abaixo, que na minha opinião estão longe de dizer o que realmente isso significa e o peso que isso tem.

misoginia

substantivo feminino

1. ódio ou aversão às mulheres.

2. aversão ao contato sexual com as mulheres.

Origem

⊙ ETIM(1858) grego misogunía,as 'horror, aversão às mulheres'

Recentemente, durante um atendimento de uma das minhas meninas (que é como, na minha cabeça eu carinhosamente chamo as mulheres que eu atendo), comentei que determinada atitude, de uma determinada pessoa, foi misógina e ela não sabia o significado dessa palavra. 

Fiz questão de pesquisar o significado na hora e ler junto com ela exatamente o que tem ali acima, mas na mesma hora eu percebi que era insuficiente. Ainda assim, nesse contexto, eu gosto bastante de apresentar novas palavras seguindo este caminho. Eu sei que uma simples pesquisa no dicionário vai me retornar algo mega simplório, mas me parece um ponto de partida interessante. Então vamos pensar: sabemos o significado de ódio ou aversão?

Provavelmente sabemos. Ainda assim, vamos ler como está no dicionário.

ódio 

substantivo masculino

1. aversão intensa ger. motivada por medo, raiva ou injúria sofrida; odiosidade.

2. figurado: a pessoa ou a coisa odiada.

Origem

⊙ ETIM(sXIV) latim odĭum,ĭi 'ódio, aversão, repugnância, antipatia'

aversão

substantivo feminino

1. sentimento de repugnância em relação a pessoa ou coisa; repulsão, antipatia.

"tem a. a indivíduos prepotentes"

2. rancor, ódio.

"desenvolveu grande a. pelo padrasto"

Origem

⊙ ETIM(1598) latim aversĭo,ōnis 'id.'

Como eu gosto desse exercício desde criança, ele acaba aparecendo vez ou outra na minha prática clínica. Às vezes eu pesquiso o significado de palavras óbvias que eu já sei o significado, pode ser um hábito simples, uma brincadeira de infância de uma menina nerd solitária, mas eu sinto que tem algum fundamento. Vamos ver?

Quando você lê apenas as palavras ódio ou aversão que constam no significado de misoginia, não faz parecer que são coisas distintas? Ou que a aversão é uma evolução do ódio? Se você expandir os sinônimos de uma palavra, você encontra a outra. Mas segura aí essa informação, vamos continuar. Antes de ler o significado de ódio e de aversão propriamente dito, não te dá a impressão que é uma coisa meio distante? Essa é a segunda informação, segura mais um pouco com você.

Agora vamos pensar assim:

Se eu te digo essa frase: “Steela olhou com ódio para o pai”, o que vem na sua cabeça?

E se eu digo: “Steela não sentia a mesma aversão que seus pais pareciam sentir” o que você pensa? Para você é fácil ou difícil responder isso? 

Para algumas pessoas vai ser fácil, elas já têm um significado para essas palavras e automaticamente associam ao que elas sabem. Para outras vai ser difícil pois a frase por si só não diz nada que me ajude a entender mais o contexto. Isso só me faz pensar em perguntas, tipo: Porque ela tem ódio do pai? Ao que os pais dela tem essa aversão e ela não? Se a opinião diverge, então ela tem razão em sentir ódio ou não? E por aí vai. 

Acho que isso é coisa de gente que tem palavras demais na cabeça e precisa escrever.

Mas voltando para nosso exemplo da pessoa que não conhecia o significado da palavra.

Seguindo essa lógica de fazer perguntas em cima de outras perguntasm temoas mais: Por que será que ela não conhecia? Será que ela não viveu isso? (Duvido). Será que ela nunca nem ouviu essa palavra? (Possível) ou será que ela reconhece o significado, mas não sabe que aquilo se chama misoginia? (Bem capaz). O fato é que quando comecei a citar exemplos concretos de misoginia, ela logo entendeu.

Mas que diferença isso fez na vida dela?

Isso só ela pode dizer mas, acredito que da próxima vez que ela se deparar com qualquer atitude misógina, são maiores as chances de ela lembrar dessa conversa e que ela pode estar diante de algo que não é muito legal, algo que terminantemente não é naaaaadaaaaa legal! 

Palavras como ódio e aversão, lidas assim no seco dentro do significado de misoginia não trazem nenhum peso para mim.

Ódio e aversão podem se manifestar de tantas maneiras e na vida de cada pessoa ter um significado tão diferente, que só após eu buscar diretamente seu significado começo a perceber a infinidade de outras palavras que são sinônimos e antônimos dessas e ao ir lendo essas palavras o mesmo processo ocorre automaticamente na nossa cabeça, a gente vai tomando conhecimento da dimensão daquilo, e aí sim essa palavra misoginia passa a ter um peso real, pois é isso que faz diferença a gente trazer pro real, para o concreto, conseguir olhar pro mundo que a gente vive e reconhecer ali onde estão os exemplos de misoginia.

Se eu ficasse presa só ao ódio ou a aversão como palavras isoladas eu ia imaginar uma pessoa agindo com ódio e aversão em seu significado literal ou mais próximo a como eu vivencio ódio ou aversão, alguém maltratando uma mulher, batendo nela, xingando ela, etc, apenas os casos mais literais e explícitos, sendo que não, no dia a dia isso fica tão diluído dentro do que é considerado o “comportamento normal” que pode até facilmente passar despercebido. 

A quem interessa que mulheres não percebam isso acontecendo? Será que justamente a quem tem esse ódio ou aversão? Aí eles podem agir livremente e tal? E quem são essas pessoas, afinal? Quais são essas diversas formas de agir que indicam misoginia?

Gente são tantas perguntas que a gente pira facinho se for por aí. Mas como meu objetivo não é entrar uma pira louca e discutir isso em específico. Inclusive era para ser só um exemplo, mas eu me empolguei e nem sei se me fiz entender, mas vai ficar ai mesmo.

 

gif com som da Chiquinha do Chaves pega no flagra fazendo merda

Algumas pessoas vão ser mais atravessadas por esses assuntos que outras.

Dica da Mika: troca a palavra sensível que normalmente usam aqui por atravessada, vai por mim ;)

Por muitos anos eu estive totalmente dessensibilizada sobre essa e outras questões estruturais ou possuía um entendimento bem inicial, mas é o processo, não dá para desde o início saber de tudo sobre um assunto, né? O meu ponto aqui é que, esse assunto me atravessa diretamente, ele molda a minha vida de diversas maneiras, mas e se não atravessasse? Será que eu teria o mesmo nível de interesse nesse assunto?

Para citar outro exemplo que também faz parte da minha história: isso acontece também com a questão da deficiência. Se você nunca convive com uma pessoa com deficiência em nenhuma esfera da sua vida, isso faz parecer que é uma “coisa” distante, uma “coisa” sobre a qual alguém fala de vez em quando. 

E não é por maldade, é só que possivelmente a sua vida gira em torno de você e da sua realidade. Se algo não faz parte da sua realidade e você não estuda sobre, você não se pergunta ou está tão cheio com seus próprios problemas que não sobra tanto tempo assim para considerar o que acontece ao seu redor é isso que acontece.

Você já parou para se questionar quem são aquelas pessoas que atuam como figurantes na sua vida? 

A gente nem sempre se questiona porque as coisas são como elas são, às vezes parece até que mais atrapalha que ajuda viver considerando isso, te faz sofrer também de alguma maneira, logo é muito mais fácil só se importar com o que te interessa, viver na sua cabeça, na sua vida, na sua bolha. 

Não é à toa que isso acontece, mas falar sobre isso desviaria o assunto, nesse momento, vamos nos ater à seguinte questão: ninguém precisa saber sobre tudo. Ponto. Fato.

Mas, vamos lá para mais um jogo de perguntas sem respostas:

Se eu estou vivendo a minha vida focada no que me interessa e no que me atravessa, logo, outras pessoas podem estar fazendo o mesmo, não?

Então, também poderíamos pensar que: Se não preciso saber sobre tudo, então eu foco em saber o que eu já sei e com as outras pessoas, quando precisar, eu posso aprender algo com elas, não é?

Sim! Essa é a parte boa de se estar cercado de gente e de experiências diversas, é saudável até que exista essa troca de saberes entre as pessoas, e não é saber acadêmico não, é qualquer saber mesmo. 

Ok, agora vamos reunir em um só lugar todos os pontos dessa conversa toda. 

  1. Misoginia é o ódio ou aversão às mulheres

    • Mas quem faz isso? Eu não vejo o tempo todo alguém agindo com ódio ou aversão de forma tão descarada, aí fica até fácil “esquecer” que isso existe.

  2. Ódio e aversão possuem compreensões distintas a depender da pessoa que está lendo essa mensagem já que a forma como eu entendo algo também depende do meu nivel de contato com aquilo e história de vida, por exemplo. Sendo assim podemos considerar que.

    • Existe uma definição direta, mas cada pessoa pode entender de um jeito?

    • Se cada pessoa tem a sua definição, como eu vou saber qual a definição mais correta para aquilo?

  3. Pessoas diferentes vão se interessar por diferentes temas e existe a possibilidade de aprendermos uns com os outros, assim eu não preciso saber de tudo que existe. Por exemplo: a gente não precisa inventar a roda uma vez por ano, ela já está lá, já temos ela, aproveitamos ela, eu não preciso saber como fazer uma roda, eu posso apenas usufruir disso que outra pessoa inventou eu não precisei me interessar por isso, mas alguém teve interesse, foi lá e inventou. Pensando nisso e no fato de estarmos lá trocando informações com alguém que sabe muito sobre algo que nós não sabemos, logo isso pode ser feito através de:

    • Lendo algo escrito por uma pessoa que sabe mais sobre o assunto que eu não sei.

    • Assistindo algo produzido por uma pessoa que sabe mais sobre o assunto que eu não sei.

    • Conversando ou ao menos ouvindo uma pessoa que sabe mais sobre o assunto que eu não sei.

  4. Em resumo, temos então as opções de:

    1. Estudar teoricamente

    2. Conhecer a experiência de outras pessoas

    3. Ignorar e seguir apenas com o meu conhecimento.

Lembra que eu comentei que ao mostrar exemplos reais de misoginia, aquela pessoa que atendo rapidamente entendeu sobre o que eu estava falando?

Por ela ser mulher, isso a atravessa tanto quanto atravessa a mim que também sou mulher.

Então quer dizer que só mulheres sabem o que é misoginia?

Na prática pode até ser que sim, mas não precisa ser mulher para entender, afinal temos como transmitir aquilo que sabemos mais entre nós, certo?

Logo: homens são plenamente capazes de entender o que significa misoginia. 

(Tudo isso foi para chegar nas questões que desencadearam a 3ª ocasião.)

Se um homem escolhe ignorar o que está sendo dito por uma mulher e seguir apenas com o seu conhecimento, o que isso quer dizer?

Se um homem sequer deixa uma mulher falar sobre o que ela sabe e já joga nela tudo aquilo que ele mesmo sabe, o que isso quer dizer?

Se o homem até deixa a mulher falar, mas constantemente ignora o que essa mulher falou para procurar na fala de outro homem aquilo que ele quer saber, o que será que isso quer dizer?

Se uma pessoa (aqui independente de gênero) chega para você e fala que o jeito que você falou causou desconforto, qual é a postura esperada?

Tentar entender o que levou àquilo. Se desculpar ou ficar muito incomodado e argumentar algo que nem estava dentro do assunto principal como forma de desviar a atenção de todos que estão acompanhando a conversa para o fato: essa pessoa se sentiu incomodada com algo que você fez, não seria melhor resolver isso? 

Ok, vou adicionar só mais uma camada aqui:

Sabe os 3 mosqueteiros “um por todos e todos por um”? Todos eles eram o que?

A resposta era para ser HOMENS mas eu não achei nenhum video decente vou ficar com os gatinhos.

Homens costumam muito fazer isso eles se defendem rapidinho. Não tem nada que junte mais a broderagem dos caras do que:

  1. O carro quebrar no meio da estrada

  2. Um deles ser chamado de misógino

(ok ok eu sei, pode ser uma generalização, mas fodase também aqui eu escrevo o que eu quiser u.u e eu ainda tô irritada pra caramba com tudo que rolou!)

Agora temos todo o contexto para falar da 3ª ocasião sem eu falar exatamente o que aconteceu na 3ª ocasião :)

Acho que deu pra entender que foi algo relacionado a misoginia, né? 

Um ditado no qual eu acredito bastante é que: cada um sabe onde o sapato aperta. E se você está em uma situação em que várias mulheres te falam “isso me incomodou”, o mínimo que se espera da parte da pessoa que está recebendo a mensagem é que ela vai levar isso em consideração, vocês vão conversar e se resolver, não é? Néééé?

Não, nem sempre é, só que eu esqueci que isso poderia acontecer até mesmo em meio a tantas pessoas estudadas que deveriam estar mais bem preparadas para lidar com conversas dificeis.

E  nem é o caso de esperar que as pessoas saibam o que fazer o tempo todo ou que em uma situação de estresse, ansiedade etc a pessoa não se desestabilize, tudo isso é compreensível, o que não é compreensível é você estar diante de 4 mulheres te falando que tal atitude incomodou, que sim foi misógina e nesse meio ter alguém se preocupando mais em provar a inocência do camarada mosqueteiro do que parando para considerar que QUATRO MULHERES DIFERENTES TE DISSERAM MEU FILHO VOCÊ ESTÁ SENDO MISÓGINO CARALHO!!! 

“Ah mas não tô demonstrando ódio nem aversão às mulheres deste grupo, ain ain isso é perseguição” — Juro, só faltou sair essas palavras. 

Dica da Mika2 : diante da dor do outro, seja lá qual for, cala a boquinha e escuta, vai? Não fica tentando demonstrar por A + B que a pessoa que tá ali falando que aquilo doeu na verdade está equivocada, ou puxando teoria tal para mostrar que você tem mais conhecimento que todo mundo ali não, vai, pega mal, sabe? Pega muito mal, mesmo!

Lidar com outros profissionais de psicologia no dia a dia, ser parte dessa classe trabalhadora na prática, te faz ter a falsa expectativa que isso por si só basta para construir um espaço seguro pois você está ao lado de mais pessoas que verdadeiramente compreenda tais questões, mas essa semana foi a semana de ver na prática que isso não é verdade.

Essa palavra, misoginia, infelizmente é tão comum nas nossas vidas, que muitas atitudes passam despercebidas por aqueles (homens) (homens brancos) (homens brancos cis) que não precisam lidar com alguém frequentemente duvidando das suas capacidades sejam elas quais forem só por você ter a porcaria de uma buceta no meio das pernas e ter sido considerada inferior por séculos e até hoje ter que aturar essa merda e todas os piores disfarces para a porcaria do ódio ou aversão que sentem de nós. 

Machismo, misoginia, preconceito, não acontecem só quando você tem a intenção, é isso que parece que meus colegas esqueceram e que quando a gente aponta, aponta na tentativa de ser ouvida, levada em consideração e não desacreditada ou ver uma situação que não tem nada haver o cú com as calças, ser puxada para desviar o que acabou de ser dito.

Não era para ser um ataque direto, mas se é entendido assim, só sobra a decepção de saber que poha!! não tem nenhum espaço suficientemente seguro nessa droga de sociedade né! A gente sempre vai ter que estar lutando e disputando espaço com homens que já nascem com o direito de serem ouvidos e terem suas opiniões consideradas em detrimento às nossas. E se a mulher oooousar saber mais que um homem, meu deus!! Fim do mundo amanhã mesmo!

A grande diferença da 3ª ocasião para as demais é que agora eu compreendo muito mais detalhes que antigamente. Se antes eu já desconfiava que haviam camadas e motivos que iam muito além da situação em que eu estava vivendo, agora eu sei disso tanto por prática quanto por estudar. E agora eu falo. Antes só guardava. Mas agora eu falo, e ajo. E me reúno com pessoas que veem a situação da mesma forma que eu vi, que não é coisa da minha cabeça ou exagero, sequer perseguição. Se tem cara de coelho, nariz de coelho e focinho de coelho, rapaaaaiz certamente um cavalo é que não é.

 Vou nem dizer nada mais nada, só ouve essa música, tem legenda.