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#2 O tempo das coisas
Cantinho para falar sobre o tempo das coisas, pausas que somos obrigados a fazer às vezes e o resultado disso num mundo que corre o tempo todo.
O óbvio da vez é que pra tudo no mundo tem um tempo, mas que mesmo assim às vezes aceitar isso doi para caramba.
~*~
Desde que eu comecei a escrever por aqui que eu percebi no mínimo duas coisas.
Eu uso a palavra coisa o tempo todo!
Credo! Tô quase aqueles professores que tem um vício de linguagem tão marcado que o pessoal zoa que se você tomar um shot toda vez que ele fala a tal palavra, frase ou expressão, a turma sairia trêbada da aula (não sei se tinha isso onde você estudou, mas onde eu estudei tinha). O verbo coisar é muito amplo e encaixa em tudo de fato, mas repetições em excesso normalmente me incomodam em qualquer contexto, então pretendo encontrar novos verbos a partir de agora.
Tem me feito muito bem deixar o texto descansando alguns dias.
Até o momento eu já escrevi uns 5 desses para enviar por aqui e para mim isso é bem inédito. Sinal que minha cabeça de escritora voltou a funcionar como sempre foi e isso me deixa muito feliz. Às vezes tô lá lavando louça ou só existindo e puff! Do nada vem uma ideia. Seja para algo a ser dito por aqui, seja sobre uma história nova que eu comecei a escrever em Maio.
Esse pensamento de ter uma cabeça de escritora ficou muito marcado para mim depois de 2016 quando eu comecei a escrever ODQR (que é a abreviação do nome do livro, mas eu explico sobre isso depois). Tudo no mundo me fazia pensar “como seria inserir isso em ODQR” - e quando eu digo tudo, é tudo mesmo! Tenho até hoje um grupo no telegram só para salvar coisas aleatórias que via por aí e pensava em ODQR. Uma verdadeira representação da minha mente e interesses.
Na época que essa história surgiu na minha cabeça eu estava afastada da minha rotina comum por ter quebrado o tornozelo e estar (mais uma vez) sem conseguir andar. Foi uma época bem tensa e talvez essa seja a maior Newsletter dentre as que mandei até agora. Então se tiver em pé, senta aí pra não cansar.
Em 2016 eu estava há 3 anos num ritmo frenético de trabalhar de 7 às 18 e de lá ir direto para a faculdade, chegava em casa de novo só lá para depois das 23h se não perdesse o ônibus. De alguma forma eu ainda conseguia encontrar tempo para estudar, aprender minimamente o conteúdo e ainda compartilhar com a turma meus resumos. Nessa época eu adorava estudar psicologia e se pudesse eu viveria fazendo apenas isso (a intensidade mudou hoje, está mais saudável, mas ainda adoraria viver apenas disso).
Teve uma vez que durante uma semana de provas no terceiro semestre eu dormi apenas 8h! O recomendado para um dia inteiro foi o que eu dormi uma semana inteira! Isso tudo porque eu estava tendo muitas disciplinas que gostava tanto a ponto de virar a noite lendo e resumindo as coisas e ~ enviando no grupo da turma gravando áudio explicando o conteúdo que para mim estava mamão com açúcar ~ era Psicologia Social, a galera detestava mas sempre foi a minha preferida e eu me empolgava pra caramba com o fato que todo mundo recorria a mim para pedir ajuda com o conteúdo.
E não era só para meu grupo mais próximo, era literalmente uma turma toda de mais de 50 alunos. Era uma faculdade particular, não me senti capaz de ir para a UFRN não por duvidar da minha capacidade de passar ou que eu não tankaria estudar lá, mas porquê eu precisava trabalhar e se estudasse lá isso não seria possível - pelo menos não como eu já estava trabalhando (desde 2009) no Departamento de Pessoal de uma empresa de ônibus aqui na cidade.
Sendo faculdade particular, eu entrei pelo Fies bem nos anos finais ali do auge de programas como o Fies e Prouni, com isso a configuração da minha turma era bem específica. De quase 70 alunos que iniciaram em 2013.1 não tinha nem 5 que eram pagantes.
A maioria dos meus colegas vinham do interior em um ônibus escolar da prefeitura e sinceramente na minha opinião tinham uma rotina mais puxada ainda, pois tinha alguns deles que para estar na faculdade às 18h precisavam sair de casa entre 15 e 16h da tarde e chegavam em casa pra lá de meia noite.
Foram inumeras as vezes que eu comemorava ter chegado cedo em casa mas depois batia a bad em pensar que eles estavam talvez na metade do caminho. E quando tinha alguma atividade no sábado ou pela manhã, era pior ainda, não tinha o ônibus da prefeitura, ou eles pagavam ou eles faltavam, com isso quem morava em Natal mesmo tentava ajudar o pessoal levando pra dormir em casa para ninguém perder nada.
Eu saí de um ensino fundamental sem amigos, para um ensino médio com alguns amigos e depois para a faculdade sendo amiga de todo mundo de uma turma enorme e bastante unida (não que não tivesse tretas, mas perto de outras turmas que vi, éramos unha e carne).
Tudo isso para dizer que sim, minha vida girava em torno da faculdade.
Eu queria cursar psicologia desde criança, estar ali, ter amigas, um grupo que funcionava (o meu grupo mais próximo de fato não tinha os habituais problemas de só um fazer tudo e os outros se escorando, era incrível e eu amava estudar sobre grupos também!) e ainda “ser amiga” daquela enorme quantidade de pessoas era a realização de um grande combo de sonhos.
Até que um dia eu estava indo para o trabalho e caí na escadinha do ônibus na hora de descer ~ porque alguém deixou uma embalagem de pipoca Bokus no chão ~ eu pisei e caí sentada na escadinha ‘-’ poderia ter sido uma queda boba se eu não tivesse caído por cima da perna esquerda, quebrado o tornozelo e luxado o pé em um monte de partes.
Eu fico rindo até hoje da cara de bunda que o povo fazia no hospital quando eu falava o motivo de estar ali. O povo chegava achando que eu tinha sei lá, caído de moto, sofrido um acidente de carro ou qualquer outro motivo dramático assim, mas não, eu pisei num lixinho escorreguei e caí :)
Por causa de um erro médico eu demorei horrores para conseguir andar de novo, essa parte nem era novidade para mim pois aos dez anos já tinha voluntariamente passado por isso por causa de uma cirurgia na perna direita (relacionado à minha deficiência), mas ter que trancar a faculdade foi golpe baixo pra caramba!
Espero que você que está lendo não tenha que passar por nada disso, mas se você já passou ou acompanhou alguém que ficou internado um tempinho considerável vai entender o que eu vou falar agora.
Quando somos hospitalizados a gente meio que perde muito da nossa própria identidade. A depender do hospital você se torna paciente número tal ou paciente (segue para a descrição do motivo de você estar ali), a vida passa a girar em torno de tomar remédios, olhar pro teto, tentar mais ou menos interagir com seus colegas de enfermaria se for possível, lidar com enfermeiros e esperar a hora da refeição, mesmo que seja uma bosta e a hora da visita do médico de plantão que às vezes nem olha na sua cara.
Você perde sua autonomia, você mal vê o lado de fora, (no meu caso eu não via mesmo, já que não podia andar), você não sabe se é dia ou noite, tem luzes ligada na sua cara às vezes 24h por dia, e no meu caso, eu não estava sentindo dor (apesar de ter passado uns 15 dias internada esperando para fazer cirurgia usando apenas uma tala simples), mas consegue imaginar passar por tudo isso sentindo dor?
Como nada daquela rotina era novidade para mim só sobrou afundar em mim mesma e no meu sofrimento de estar perdendo um monte de tempo ali quando deveria estar executando a atividade mais esperada da primeira metade da graduação (para mim pelo menos) - uma disciplina prática de trabalho comunitário — meu grupo estava trabalhando com uma instituição de caridade que também era um grupo de escoteiros, no semestre anterior tínhamos feito a parte teórica com visita e atividades voltadas para um reconhecimento das necessidades do grupo diretamente com eles (e não definidas por nós, acredite isso faz muita diferença nesse tipo de trabalho) e justo quando iríamos colocar tudo aquilo em prática… eu me ausentei.
Eu vou encurtar essa história toda dizendo que fiquei mal pra caralho, as pessoas faziam de tudo para me confortar, recebi visitas do pessoal da faculdade, de professores e colegas do trabalho, eu já tinha sido cobradora de ônibus nessa época e conhecia todo mundo de todos os setores da empresa, então a galera realmente se juntou para arrecadar itens que poderiam ser úteis para mim naquele momento, dinheiro, etc e em algum lugar dentro de mim eu me senti muito querida realmente, mas receio que eu não tenha conseguido agradecer devidamente nenhuma dessas pessoas até hoje.
Voltei a morar com meus pais por um tempo depois da alta, pois meu ex-marido na época não seria capaz de cuidar de mim devidamente e meus pais já tinham experiência de sobra nisso. Passei praticamente seis meses inteiros sem ver ele, pois ele não se sentia à vontade para me visitar lá (aí é outra longa história), mas isso não fez diferença nenhuma para mim também. Eu tinha virado uma boneca de pano, onde me colocavam tanto faz, não me importava.
Fiquei responsável por fazer toda a parte teórica do nosso trabalho na faculdade e devo ter feito uma coisinha qualquer bem meia boca (isso na minha visão, pois já entendi que meu mínimo é bem elevado para as outras pessoas, então todo mundo achou muito bem feito, mas pra mim tava uma bosta), isso, sentir que estava fazendo algo meia boca, me irritava pra caramba, lembro que uma vez eu quase joguei o notebook na parede, mas me segurei por motivos de “sou pobre não posso me dar ao luxo de surtar nesse nível”.
Com o tempo pararam de ir me visitar, afinal a vida deles seguiam o curso ficava cada vez mais corrido e não sobrava lá muito tempo. Nessa época entendi que eu não era amiga de todo mundo como eu achava, mas com isso não quero dizer que as pessoas foram falsas ou interesseiras (embora sei que talvez tenha tido uma ou outra assim).
Hoje eu percebo que senti muita raiva de ver as pessoas seguindo a vida normalmente - é meio irracional, mas nessas horas a gente não é racional mesmo não. Eu ainda não fazia terapia nessa época, então foi como passar por um furacão sozinha sendo jogada de um lado para o outro conforme os sentimentos iam oscilando. A coisa ficou tão ruim que até o final, eu quase tive que cortar o cabelo todinho (raspar mesmo) pois embora não me deixassem ficar deitada sem levantar nem pra tomar banho, não tinha santo que me fizesse lavar o cabelo eu não tinha forças nem energia para isso e se não fosse a paciência e persistência da minha mãe, eu realmente teria feito isso pois teria sido bem mais fácil.
ODQR nasceu nessa época e foi o que me salvou. Meu irmão mais novo me indicou um anime - eu já tinha assistido alguns com meu ex marido nessa época, mas aquele foi o primeiro que eu vi sozinha por conta própria, algo que era só do meu gosto mesmo.

Fairy Tail. Magia, poder da amizade, sexualização feminina e gente demais sobrevivendo a uma guerra por que o Hiro Mashima aquele palerma não sabia fazer o negócio direito (até hoje eu não perdoei essa criatura, estragou demais a história)
Enfim, ODQR nasceu como fanfic pois eu queria reescrever a droga da história sem as bobajadas que ele colocava e de bônus eu ainda conseguia inserir na história todo o meu conhecimento teórico recém adquirido sobre o processo grupal (pois meu passatempo quando conseguia, era ler o material que a professora de Psicologia Social enviou para eu estudar para a prova que eu faria em casa mesmo).
Foi o que me permitiu voltar a viver um pouquinho mais, cheguei a escrever uns 50 capítulos que costumavam ser enormes, coisa de 7 a 10 mil palavras ou mais. Era maravilhoso escrever de novo (já tinha escrito algumas coisas antes, mas nunca com a intenção real de construir uma história desta maneira propriamente dita) e era melhor ainda saber que tinha gente que lia e gostava do que eu tava escrevendo! Foi como eu passei a ver com bons olhos aquele tempo afastada de tudo. Eu podia focar em mim mesma, podia passar o dia todo escrevendo ou conversando com as pessoas que conheci por causa daquele anime (se não me engano finalzinho de 2016, começo de 2017).
2016/2017 foram anos incríveis nesse sentido e de fato aprendi muito mesmo sobre mim mesma e sobre algumas coisas que aconteciam no meu trabalho que me incomodavam, no sentido de reconhecer e nomear algumas coisas mesmo, eu percebi que sofria bullying - ou melhor um monte de capacitismo e misoginia com roupinha de bullying, hoje eu já nem gosto mais de usar este termo, ele mascara os nomes do que realmente tá acontecendo e faz parecer que é uma coisa estrangeira, que não tem haver com a gente. (Perceber isso foi mais um feito alcançado com ajuda da minha psicóloga maravilhosa, inclusive).
Quando voltei para a faculdade, a minha primeira turma já estava no último semestre. Tinham juntado turmas nesse meio tempo, então não era mais a mesma turma. Acho que um exemplo que ficou muito marcado para mim foi que quando eu saí geral detestava professora x, quando eu voltei todo mundo amava ela (pessoal detestava porque era disciplina de Metodologia aí não tem bom professor que dê jeito mesmo).
Nos trabalhos sempre tinha que abrir uma exceção “no meu próprio grupo” (leia isso com tom de voz indiginado - que absurdo!), pois já tinha a quantidade máxima de participantes mas ninguém queria me deixar de fora. Por sorte eu só cursei uma única disciplina junto deles e as demais foi eu me virando para ser a novata no meio da graduação - normal.
Cursei com eles a disciplina de encerramento que foi ministrada pela minha professora preferida! E que bom que era ela pois ela foi muito sensível e delicada em relação à minha situação, realmente me senti que ela me via ali, sabia quão difícil estava sendo voltar naquele contexto e fez de tudo para eu não me sentir deslocada. Não só por isso, mas depois disso Waleska passou a ser meu maior exemplo de profissional se um dia eu for 1% tão incrível quanto ela eu tô feliz.
Passei uns perrengues para conseguir terminar a faculdade. O fies acabava em 1 ano após eu retornar mas eu tinha ainda 2 anos e meio para cursar.
2018.2 eu cursei 9 disciplinas e fiz 2 estágios obrigatórios de uma vez só, ainda trabalhando naquela mesma empresa entre 7 e 17h pois por um milagre enquanto eu tava afastada tinham aceitado reduzir uma hora de almoço pra galera poder sair mais cedo.
9 disciplinas, 2 estágios trabalhando em tempo integral + aos sábados pois foi o acordo lá com eles, eu saía para os estágios em alguns dias da semana e ia trabalhar lá no sábado com o pessoal de outros setores para compensar as horas que devia. Não vou negar que me orgulho pra caramba de ter feito tudo isso e passado por média em tudo, mas prefiro não repetir a dose, mas que foi foda, foi.
Tenho certeza que se eu não tivesse sido obrigada a parar em 2016 eu certamente teria terminado a faculdade dentro do tempo padrão e entrado direto em um mestrado ou pós e sabe lá como eu estaria hoje (provavelmente toda fudida da cabeça), mas a pausa obrigatória me fez mudar muita coisa e eu já não queria mais aquela vida frenética louca para mim.
Apesar de ter passado o último semestre daquele ano numa rotina mais corrida ainda, algo estava completamente diferente, aprendi a respeitar meu tempo, aprendi que mesmo tendo interrompido tudo, eu não tinha ficado para trás em relação a ninguém da minha turma, pois enquanto eles estavam na correria da faculdade preocupados com notas eu estava caminhando no meu ritmo e aprendendo outras coisas que talvez eles nem tivessem a chance de aprender com calma depois.
Não quero com isso dizer que me saí melhor que eles, mas certamente minha forma de ver o mundo se tornou bem diferente depois disso tudo. Eu percebia a diferença nas respostas que dávamos em atividades feitas em sala de aula. Eles tinham um acúmulo teórico maior que o meu, obviamente, mas as respostas deles sempre pareciam ensaiadas aos meus ouvidos e isso me fez pensar muito sobre o quanto nossa história de vida vai nos diferenciando uns dos outros.
Essa é outra obviedade né, mas acho que quando você realmente passa por uma experiência que difere muito da experiência da maioria é impossível não sentir que você está em um lugar totalmente diferente do restante do pessoal depois, não que isso seja melhor ou pior, só tem o potencial de ser diferente mesmo.
Por isso gosto tanto de ler e de escrever, dá para aprender milhões de coisas só e por isso também me irrita pra caramba o fato de tantas editoras reduzirem suas publicações a livros estrangeiros do hemisfério norte (estragos unidos e europias), ao nosso lado mesmo tem um monte de histórias valorosas pra caramba! E por “lado” digo literalmente também. Mas isso aí já é outro assunto e depois eu tento listar algumas coisas legais para indicar por aqui, só leituras nacionais de autores independentes. Se pah, até posso quem sabe falar de ODQR também.
Obviamente tem muitos detalhes nessa história toda que contei, situações que rendem boas reflexões também e que não entraram aqui, pessoas que foram importantes nessa trajetória, algumas ainda por perto até hoje, outras não são mais próximas a mim, por muitos motivos, alguns dolorosos, outros nem tanto.
Mas disso eu falo outro dia quem sabe. Vou só deixar aqui as músicas que me vem à mente depois de toda essa história triste do Naruto.
Essas duas me pegam pra caramba.
Tudo haver uma com a outra né! >.<
